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* Matéria veiculada pelo "Jornal Diário"
de Pará de Minas em 09/01/2009.

 


 

"Urbano volta ao Vale do Sabugi, e isso nos faz muito bem"


Acabo de receber o novo CD de Urbano Medeiros, “A música do Vale do Sabugi”. Não faz muitos dias que ele havia me telefonado falando desse novo trabalho, mas, advertiu-me que é “um disquinho desnudo, onde quero apresentar a música pobre do Vale do Sabugi”. De fato, o material gráfico é pobre, velhas fotos desbotadas, esverdeadas até. Mas, basta ouvir a primeira faixa, para sermos surpreendidos.

Porém, antes de falar do disco, e, a título de contextualização, o Vale do Sabugi compreende uma área que abrange os sertões do Rio Grande do Norte e Paraíba, englobando umas duas dezenas de cidades. Região preferida por ciganos, beatos e cangaceiros, em tempos idos. Frei Damião, o missionário capuchinho italiano, tinha uma predileção especial por esse imenso e seco vale. Aliás, a toponímia do Vale do Sabugi se assemelha muito à Palestina do tempo de Jesus, razão pela qual muitos cristãos novos, fugindo das perseguições que lhe infligiam na Península Ibérica, escolheram o vale para ali assentarem morada: os Oliveiras, Pereiras, Medeiros, Leões e tantos outros marranos, muitos dos quais já perdidos nos livros de genealogias, são seus descendentes diretos. Urbano nasceu às margens do rio Sabugi, no sopé da Serra do Mulungu, em São João do Sabugi.

Estruturalmente falando, “A música do Vale do Sabugi” nada tem a ver com “Orando com Efrém da Síria”, primeiro CD de Urbano. Se, em Efrém da Síria, ele volta às nossas origens cristãs, em A música do Vale do Sabugi Medeiros nos remete às suas raízes sertânicas, catingueiras por assim dizer. De fato, o disco é desprovido de qualquer sofisticação eletrônica. As melodias são pré-gonzagueanas, nos remetendo para um período quando o sertão conhecia apenas o fole de 8 baixos e a música instrumental era bem mais aceita e difundida. Eu mesmo, menino, fui a esses sambas, tocados pelos meus tios Chatu e Jó Balcão, Chico Véi e outros tantos forrozeiros. Xotes, baiões, pagodes, xaxados, todos eles executados magistralmente por Urbano que, na maioria das canções, toca todos os instrumentos. Urbano e seu inconfundível saxofone. O melhor sopro que já ouvi. E ele está de volta, em visita ao mitológico Vale do Sabugi.

São onze canções sertanejas, onde também se faz presente uma forte influência cigana. Ali, naquelas paragens, periodicamente éramos visitados por ciganos e retirantes, todos eles fugindo das grandes secas que frequentemente assolavam e ainda castigam o sertão nordestino. Em “A música do Vale do Sabugi” Urbano desce – e descer aqui tem um sentido de profundidade, de ir ao fundo do poço buscar a última cuia de cristalina água – às mesmas e benfazejas fontes que o fizeram conceber “Orando com Efrém da Síria”: o coração humano, fonte última donde emana toda a arte.

A ideia inicial de Urbano era batizar o CD de A música pobre do Vale do Sabugi. Consultado, sugeri que retirasse o adjetivo pobre. E eu estava certo. Não há nada de pobre neste CD. A arte, quando verdadeira, jamais será pobre, ainda que concebida sem sofisticações eletrônicas e desnuda de grandes e mirabolantes projetos gráficos. Um disco vale pelo que se ouve. E escutar “A música do Vale do Sabugi” me fez muito bem.



Tarzan Leão de Sousa
Da Academia de Letras do Noroeste de Minas
27/01/2010

 


 

SITE JUDAICO-CATÓLICO

 

Clique aqui e leia a matéria sobre Urbano Medeiros (em Hebraico).

 


 

CARTA DO SR. SÉRGIO LUÍS ARAUJO DE SOUZA

 

"Caro irmão Urbano Medeiros,

Paz!

Chamo-me Sérgio. Sou apenas um leigo católico, esposo e pai de família, amante das riquezas da cultura e da tradição católica. Não tenho nenhum “ministério”, mas toco meu contrabaixo elétrico e me meto a falar e a escrever um pouco de Deus pra quem quer me ouvir. Prego mais para o deserto do que para as pessoas. Hás uns dois anos me apaixonei pela “dama” filosofia e me aventurei, o quanto pude, pelos caminhos dos gregos e dos medievais. Dos modernos não entendi nada. Continuo tentando. Sou autodidata e vou me virando por aqui e ali. Mas a filosofia me conduziu ao deserto. Fiquei seco, árido. Passei a pensar muito em Deus e a rezar cada vez menos. A filosofia, se a gente der bobeira, faz isso. Fiquei assim, como que desencantado. Mas com a sede pela verdade ainda ardendo dentro de mim. Isso eu nunca deixei de ser, um buscador. Um que vive a cortejar o abismo do mistério.

Sou também um admirador de Charles de Foucauld. Mas o amigo dos tuaregues já chegou a mim de segunda mão, pelos livros de Carlo Carretto e de Raïssa Maritain. O convite de Voillaume estremeceu nos meus ouvidos: “ao coração das massas!” e o eco de Foucauld na alma de Raïssa Maritain, ser “contemplativo nos caminhos” tocou-me profundamente. Mais que São Josemaria Escrivá, a quem também amo, a espiritualidade dos irmãozinhos de Jesus me cativa. Nela aprendi que não preciso fazer antes de ser. E que meu apostolado está mais ligado ao meu trabalho e ao meu dia-a-dia do que ao púlpito que fica dentro da Igreja. Benditas horas que Foucauld se consumia diante de Jesus-Hóstia!

Irmão Urbano, falava eu da secura provocada pelas viagens filosóficas. Sim, eu estava num deserto árido. Perdi a mística, perdi a unção. Questionei o que tinha certeza de ser a voz de Deus em mim, questionei minhas experiências sobrenaturais. Foi uma viagem dura. Desconstruí minha espiritualidade, ainda que tivesse a firme certeza de que nunca deixaria de ser católico. Como diz um autor que admiro, sou católico por motivos objetivos e subjetivos. Ser católico está impresso em minha alma como uma tatuagem, uma marca indelével, causada pela educação recebida no seio familiar e pelas eternas marcas batismais gravadas em minha alma. Nada tiraria o ser católico de mim.  Mas que triste ser católico de estatística, ser católico cultural apenas! Ser “cristianista” e não cristão, como diz Remi Brague. Eu não aceitaria. Por isso continuei minha busca. E continuo. Até que uma recomendação da sua obra me cai nas mãos. Urbano Medeiros. É claro que já tinha visto você, de passagem, na Canção Nova, na Rede Vida. Mas agora, entrando em seu site, ouvindo sua voz, sua fala, sua palavra e sobretudo sua música, seu sopro, redescobri o sentido da mística, da espiritualidade, da oração, da comunhão com Deus. Sua fala serena, Urbano, entrou como bálsamo em meus ouvidos e abriu caminho para sua música. Foi como se eu tivesse de novo descoberto a escada de Jacó. Redescobri que havia uma “ponte” (palavra tão cara a você...) entre o céu e a terra. A oração de Jesus, que aprendi lendo a Filocalia, as sentenças dos Padres do Deserto e a obra de Thomas Merton voltaram a ter significado para mim, assim como a adoração a Jesus Sacramentado.

Dou-me conta que você também é um historiador. A sua pesquisa musical é a mesma de um historiador, que cavuca o chão da história à procura de vestígios. Você, Urbano, também é um cavucador da história, da história da salvação atrás de vestígios sagrados em forma de música. Você busca o veio de ouro sagrado da história. Você busca a música de Jesus e de Maria.  Devo dizer que também eu sou estudante de história, num curso universitário. Também busco o sagrado. Busco, antes de um diploma simplesmente, um fundamento, o sentido, a manifestação do logos na história. Nisso, somos parceiros, somos historiadores, construtores de história, ou melhor, buscadores do Construtor da História. Vamos juntos.

Falando nesse verbo tão brasileiro, “cavucar”, lembrei: sua música é difícil, Urbano, porque escava a alma. E as pessoas preferem a superficialidade, até mesmo dentro da Igreja. Sei disso. Todo mundo quer rezar a “novena das rosas” e pedir um emprego, mas poucos querem ler a “História de uma alma” porque ler este livro é mergulhar na alma de Teresinha e mergulhar na alma de um santo dói. Dói porque este mergulho obriga-nos a olhar para o próprio Deus, porque a vida de Teresinha é uma página da palavra de Deus, como disse um Papa. E olhar para Deus, contemplá-lo é algo que desvela além de nossas luzes, nossas sombras. Poucos querem empreender essa jornada que é olhar para próprias sombras e misérias. Sair da superfície da vida e sondar as profundezas. Sua música faz isso, Urbano. Por isso eu digo que ela é difícil. Ela conduz à contemplação e ser contemplativo é ser pequeno, escondido, perscrutar a obscuridade. Sua música também prega para o deserto! Você deve se sentir muito sozinho, às vezes, no seu ministério, não é? 

Eu também me sinto assim. Às vezes parece que não há lugar na paróquia para mim. Ninguém quer saber de filosofia, eu quero. Poucos querem saber dos Santos Padres, eu quero. Ninguém quer saber da Escolástica, da Teologia, da História. Do tesouro escondido da Igreja. A maioria prefere a palavra adocicada da auto-ajuda ou o evangelho da prosperidade ou as curas extraordinárias. Às vezes fico me perguntando se tudo isso não é por causa do coração simples e pobre do nosso povo. Mas, vejo que nem sempre é esse o motivo. Vejo pessoas com condição de um mergulho mais profundo, meninos com vocação sacerdotal que não tem coragem de dispensar um namorico. Meninas chamadas à consagração que não abrem mão de seus pequenos desejos pessoais. Isso não é lamúria, Urbano, é uma constatação que faço. Mas não me acomodo. Sei que meu desejo de profundidade brota de uma vocação, um chamamento de Deus. Por isso identifiquei-me com seu trabalho que brota de uma vocação, de uma consagração e não da necessidade de aplausos e sucesso.

Não sei ao certo minha vocação a não ser o “ir ao coração das massas” com o meu ser cristão e o ser “contemplativo nos caminhos” do mundo. Não estou muito interessado em que um anjo desça do céu para dizer o caminho a seguir. Prefiro ser, como dizia, Romano Guardini, um “santo do invisível”, aquele que enxerga no aqui e no agora, no hoje, nessa tela de computador, na minha filha que chora com febre, ou nos sinais divinos, mas simples, como o som crú de seu saxofone cantando uma melodia que Maria cantava para ninar o menino Jesus. Esses são meus milagres, onde vejo a manifestação de Deus. Um ipê florido, um beija flor que visita minha janela, o velho com o olhar sereno batendo pacientemente a bengala no chão.

Na verdade, nem sei porque estou te escrevendo tudo isso. Talvez seja a saudade do infinito suscitada por sua voz suave falando numa palestra. Contando aqueles testemunhos da sua infância, do seu despertar místico. Talvez seja isso. Mas não preciso ter motivos para escrever esta carta. Escrevo porque amo.

 

Um grande abraço,

Com minhas orações.

Seu irmão Sérgio."

 



SANTO TOMÁS DE AQUINO E OS EFEITOS DA EUCARISTIA



01. No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da
instituição, as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue; seus
acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração, sem violação
das leis da natureza, o Cristo único e inteiro existe Ele próprio em
diversos lugares, assim como uma voz é ouvida e existe em vários
lugares, continuando inalterado e permanecendo inviolável quando
dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo, de fato, está inteira
e perfeitamente em cada e em todo fragmento de hóstia, assim como as
aparências visíveis que se multiplicam em centenas de espelhos.

02. O efeito deste Sacramento deve ser considerado, portanto, primeira
e principalmente em função daquilo que nele está contido, que é o
Cristo. Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo a vida
da graça, segundo nos diz o Evangelho de João: "A graça e a verdade,
porém, vieram por meio de Jesus Cristo". Assim, da mesma forma, vindo
Cristo ao mundo em forma sacramental, opera a vida da graça, segundo
ainda outra passagem do mesmo Evangelho: "Quem me come, viverá por
mim",

03. O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também
pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo. Por isto, o efeito
que a Paixão de Cristo realizou no mundo, este Sacramento também
realiza no homem.

04. O efeito deste Sacramento também deve ser considerado pelo modo
através do qual ele é trazido aos homens, que é por modo de comida e
bebida. E por isto todo efeito que a bebida e a comida material
realizam quanto à vida corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e
deleitar, tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual.
E é por isto que se diz: "Este é o pão da vida eterna, pelo qual se
sustenta a substância de nossa alma". De onde que o próprio Senhor
diz, no Evangelho de São João: "Minha carne é verdadeiramente comida,
e meu sangue é verdadeiramente bebida".

05. Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser
considerado pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido. Foi
por causa disto que escreveu Santo Agostinho: "O Senhor confiou-nos o
Seu Corpo e o Seu Sangue em coisas tais que são reduzidas à unidade a
partir de muitas outras, porque o pão é um, embora conste de muitos
grãos, e o vinho é feito a partir de muitas uvas". E por isso ele
também escreveu em outro lugar: "Ó Sacramento da piedade, ó sinal da
unidade, ó vínculo da caridade!".

06. E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça, e uma refeição
espiritual e a caridade não podem existir sem a graça, por todas estas
coisas é manifesto que este Sacramento confere a graça.

07. Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes, "o amor
de Deus não é ocioso; opera grandes coisas, se de fato existe". Por
isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito
próprio, não somente é conferido o hábito da graça e da virtude, mas
também esta é conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda
Epístola aos Coríntios: "O amor de Cristo nos impele". Daqui é que
provém que pela virtude do Sacramento da Eucaristia a alma faz uma
refeição espiritual por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da
bondade divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos: "Comei,
amigos, e bebei; e inebriai-vos, caríssimos".

08. Este Sacramento também tem virtude para a remissão dos pecados
veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele é tomado sob a
espécie de alimento nutritivo. A nutrição proveniente do alimento é
necessária ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é
desperdiçado pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós também
é desperdiçado a cada dia algo pelo calor da concupiscência pelos
pecados veniais que diminuem o fervor da caridade. E por isto compete
a este Sacramento a remissão dos pecados veniais. De onde que Santo
Ambrósio diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia é
tomado "como remédio da enfermidade de cada dia".

09. Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não somente quanto
ao hábito, mas também quanto ao ato, ao qual é conduzida neste
Sacramento, pelo qual os pecados veniais se dissolvem. De onde que é
manifesto que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos
pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos mortais, não
contrariam a caridade quanto ao hábito, mas contrariam a caridade
quanto ao fervor do ato, ao qual é conduzida por este Sacramento. É
por esta razão que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento da
Eucaristia.

10. O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a pena devida
ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele ser sacrifício, como
por ser sacramento. A Eucaristia possui razão de sacrifício na medida
em que é oferecido; possui razão de sacramento na medida em que é
tomado.

11. Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito
para o qual foi instituído. Não foi, porém, como Sacramento,
instituído para satisfazer, mas para alimentar espiritualmente pela
união a Cristo e aos seus membros, assim como o alimento se une ao
alimentado. Mas porque esta união se realiza pela caridade, por cujo
fervor alguém pode conseguir a remissão não apenas da culpa, mas
também da pena, daqui ocorre que por conseqüência, por uma certa
concomitância ao efeito principal, o homem alcança a remissão também
para a pena. Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como o modo de
sua devoção e fervor.

12. Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia possui virtude
satisfatória. Entretanto, também na satisfação mais deve se considerar
o afeto do oferente do que a quantidade da oblação, de onde que o
Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da viúva que ofereceu apenas
duas moedas, que "ofereceu mais do que todos". Embora, portanto, a
oblação eucarística pela sua própria quantidade seja suficiente para a
satisfação de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles
pelos quais é oferecida, ou também para os próprios oferentes, de
acordo com a quantidade de sua devoção, e não por toda a pena.

13. A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros, pelo
mesmo modo em que o corpo é preservado da morte futura. O pecado é uma
certa morte espiritual da alma. Ora, a natureza corporal do homem é
preservada da morte pela comida e pelo remédio na medida em que a
natureza humana é interiormente fortificada contra o que pode
corrompê-la interiormente. É deste modo que este Sacramento preserva o
homem do pecado, porque através dele, unindo-se a Cristo pela graça, é
fortalecida a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida
espiritual e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo 103: "O
pão confirma o coração do homem".

14. A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também
defendendo-o contra as impugnações exteriores. Pois é sinal da Paixão
de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios, de modo que este
Sacramento repele toda a impugnação dos demônios.

15. Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à diminuição
do incitamento do pecado, diminui, porém, este incitamento por uma
certa conseqüência, na medida em que aumenta a caridade, porque,
segundo diz Agostinho no Livro das 83 Questões, "O aumento da caridade
é a diminuição da cobiça". Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o
homem no bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.

16. Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros além
dos que o recebem porque, conforme foi dito, este Sacramento não é
apenas sacramento, mas é também sacrifício. Na medida em que neste
Sacramento é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se
ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão de sacrifício. Na
medida, porém, em que neste Sacramento é trazida invisivelmente a
graça sob uma espécie visível, possui razão de sacramento.

17. Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem, de proveito
não só por modo de sacramento, como também por modo de sacrifício,
porque é oferecido por todos os que o recebem.

18. Mas também é de proveito para os que não o recebem, embora apenas
por modo de sacrifício, na medida em que é oferecido pela salvação
deles. É por isso que no cânon da Missa se diz: "Lembrai-vos, Senhor,
dos vossos servos e servas, pelos quais nós Vos oferecemos, e eles Vos
oferecem também, este Sacrifício de louvor, por si e por todos os
seus, pela redenção de suas almas, pela esperança de sua salvação e
sua segurança".

19. O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia seria de
proveito para outros além dos que a recebem, quando disse, na última
Ceia: "Este cálice é o meu sangue, que por vós", isto é, os que o
recebem, "e por muitos" outros, "será derramado para o perdão dos
pecados".

20. Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento a
obtenção da graça e da glória e a remissão da culpa, pelo menos da
venial, se este Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos
que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse a glória, a
graça e a remissão das culpas sem ação nem paixão própria, por algum
outro ter oferecido ou recebido este Sacramento. Responde-se a isto
dizendo que assim como a Paixão de Cristo é de proveito para todos
para a remissão da culpa, e a obtenção da graça e da glória, mas não
produz efeito senão naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e
pela caridade, assim também este sacrifício que é a Eucaristia,
memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito senão naqueles que se
unem a este Sacramento pela fé e pela caridade. De onde que no Cânon
da Missa não se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que nela
estão, porém, o Sacrifício Eucarístico é de proveito maior ou menor de
acordo com o modo de sua devoção.

21. Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia obtém
a remissão dos pecados veniais, assim devemos também dizer que os
pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento. Pois diz São João
Damasceno: "O fogo do seu desejo que há em nós, acendendo-se mediante
aquele fogo que há no carvão", isto é, neste Sacramento, "queimará
nossos pecados e iluminará nossos corações para que ardamos e nos
deifiquemos pela participação do fogo divino". Mas o fogo do nosso
desejo ou do nosso amor é impedido pelos pecados veniais, que impedem
o fervor da caridade. Portanto, os pecados veniais impedem o efeito
deste Sacramento.

22. Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De um
primeiro modo, na medida em que são passados. De um segundo modo, na
medida em que estão sendo exercidos em ato. Segundo o primeiro modo,
os pecados veniais de nenhum modo impedem o efeito deste Sacramento.
De fato, pode acontecer que alguém, depois de ter cometido muitos
pecados veniais, se aproxime devotamente a este Sacramento e alcance
plenamente o seu efeito. Porém, de acordo com o segundo modo, os
pecados veniais não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas
apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento não é
apenas a obtenção da graça habitual ou da caridade habitual, mas
também uma certa refeição atual de espiritual doçura. A qual, na
verdade, é impedida se alguém se aproximar a este Sacramento com a
mente distraída pelos pecados veniais. O aumento da graça habitual ou
da caridade habitual, porém, não é tirado.

23. Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento
come espiritualmente segundo o hábito, mas não segundo o ato. E por
isto recebe o efeito deste Sacramento segundo o hábito, não segundo o
ato.

24. Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o
Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é, ao fervor da
caridade, do modo como ocorre com o Sacramento da Eucaristia. O
Batismo é uma regeneração espiritual, pelo qual se adquire uma
primeira perfeição, que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é uma
refeição espiritual que possui uma deleitação atual.

25. Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao receber a
Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais na Eucaristia. A
primeira, significada e contida, é o próprio Cristo; a segunda,
significada mas não contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é, a
sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento, só
por isto significa estar unido a Cristo e aos seus membros. Ora, isto
se realiza pela fé formada pela caridade, que ninguém pode possuir
juntamente com o pecado mortal. E por isto é manifesto que quem quer
que receba este Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade.
Incorre, por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento.
Peca, por causa disto, mortalmente.

26. Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não sob a
espécie sacramental, mas em sua substância própria, não pecavam. Às
vezes até alcançavam o perdão dos pecados, como se lê no Evangelho de
São Lucas a respeito da mulher pecadora. Isto acontecia porque o
Cristo, aparecendo sob a sua espécie própria, não se exibia para ser
tocado pelos homens em sinal de união espiritual com Ele, como é o
caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi por
isso que os pecadores que o tocavam em sua própria espécie não
incorriam no crime de falsidade contra a divindade, como o fazem os
pecadores que recebem este Sacramento.

27. O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto
à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo, porque ambos ofendem
a Cristo sob um sinal de caridade. Esta semelhança compete a todos os
pecadores em geral, porque por todos os pecados mortais age-se contra
a caridade de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais
quanto os pecados são mais graves. Mas sob um aspecto especial os
pecados contra o sexto mandamento tornam o homem mais inepto para o
recebimento deste Sacramento, na medida em que, a saber, por este
pecado o espírito é maximamente submetido à carne, e desta maneira é
impedido o fervor do amor que é requerido neste Sacramento.

28. Que ninguém, pois, se aproxime desta Mesa sem reverente devoção e
fervente amor, sem verdadeiro arrependimento, ou sem lembrar-se de sua
Redenção. Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável eficácia
inflama os afetos com o fogo da caridade. Que revigorante maná é aqui
oferecido para o viajante! Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde
para os doentes, confere o aumento da virtude, faz a graça
superabundar, purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos
aflitos, vincula uns aos outros todos os fiéis na união da caridade.
Este Sacramento da fé também inspira a esperança e aumenta a caridade.
É o pilar central da Igreja, a consolação dos que falecem, e o
acabamento do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e a devoção e a
caridade fraterna são aqui saboreadas. Que estupenda provisão para o
caminho é esta, que conduz o viajante até à montanha das virtudes!
Este é o pão verdadeiro que é comido e não consumido, que dá força sem
perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça. Perdoa o pecado e
enfraquece a concupiscência. Os fiéis encontram aqui a sua refeição, e
as almas um alimento que ilumina a inteligência, inflama os afetos,
purga os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura para as almas
devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor Jesus, declara para os que
crêem Tuas maravilhosas obras.

  Tomás de Aquino
 - Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 -
 - Sermão sobre o Corpo do Senhor.

 


 

Ouvindo Urbano Medeiros...

Há alguns dias, desfrutamos da maravilhosa música de Urbano Medeiros. Ele estava em um programa da Rede Vida, falando sobre improvisação da música instrumental. Com tranqüilidade e segurança, expunha os seus pontos de vista, explicava com conhecimento profundo o que vive no seu dia-a-dia.  Falava como se estivesse no aconchego da sala de sua casa, junto aos seus familiares. Para ele tudo isso é simples como respirar...

Não consegui desviar a atenção das suas palavras por nenhum momento. Eu queria aproveitá-las ao máximo e temia que algumas delas se perdessem. E a sua música, meu Deus, como ele consegue extrair lá do fundo da alma melodias tão divinas? Digo que são divinas sem medo de errar, pois acredito que tudo que é belo vem de Deus. É um momento de êxtase, de experiência transcendental se envolver com a sua música. Fico imaginando quanto bem ele faz, levando-a para as pessoas que sofrem no corpo ou na alma. A música pode curar, pode aliviar uma dor, pode nos arrebatar de um abismo.

O que achei mais incrível foi ouvi-lo descrever a sua forma de captar os sons. Parece haver um fio condutor ligando o seu coração ao saxofone e as impressões que ele capta transformam-se em sons. As imagens o inspiram e ele vê em sua mente a escala musical. Olha para a montanha, ela se transforma em melodia. É como se ele entrasse na freqüência dela. Imagine que coisa: captar a sensibilidade de algo inanimado. Outras vezes, a música vai surgindo do nada, talvez sejam imagens retidas no seu inconsciente.

Enquanto ouvia a sua explicação, eu me lembrei de que as poesias que escrevo, às vezes, se formam assim também, através de imagens que vejo, ouço. Às vezes, são transformadas em versos imediatamente, outras, ficam adormecidas e se despertam em momentos especiais.

Desde criança, a arte, em todas as suas manifestações, me atraiu. No final da adolescência, tive enfim a oportunidade de iniciar aulas de pintura e piano. Apesar de ter-me saído bem nessas aulas, faltava alguma coisa. As imagens que surgiam em minha mente, com riqueza de detalhes, com nuances de tons maravilhosos faziam pluft como uma bolinha de sabão quando ia pintá-las. Apagavam-se todas. Eu não conseguia trazê-las para a tela a minha frente. Se fechava os olhos elas ficavam retidas e, foi por isso, que experimentei pintar com as pálpebras assim, mas quando ia conferir estava aquela bagunça. Não havia sequer uma pincelada aproveitável. Fui perdendo a motivação, pois não queria copiar os modelos existentes. A música exigia estudos freqüentes para que as partituras não fossem esquecidas. Além disso, eu também não sabia tirar no piano as melodias que eu criava.

Mas com as palavras era bem diferente. Esse transporte era realizado com a maior tranqüilidade, nem precisava buscá-las. Elas surgiam em grande quantidade e eu fazia delas o que bem quisesse. O abstrato podia ser registrado de uma forma tão clara como se fosse fotografado pela câmera digital mais evoluída. Foi por causa disso, que me dediquei com exclusividade à escrita. As outras coisas, vou deixá-las para a terceira idade, se acaso um dia chegar lá. Talvez tente novamente realizar esse transporte e, tendo a serenidade como companheira da velhice, talvez o consiga.

Urbano consegue fazer isso brincando. É o dom que recebeu de Deus. Só isso explica a sua facilidade em captar instantaneamente os sons no ar, nas nuvens, no espaço, no universo. O seu saxofone fica inteiramente sob seu comando e os dois parecem um só. É tanta harmonia! Tanta cumplicidade! Que coisa mais linda!

De repente, a apresentadora se despede. Meu Deus, não pode ser! Volto-me para Paulo e pergunto: “Já acabou?!” Paulo diz: “Sim. São dois blocos!” Falei pesarosa: “Não é possível, passou tão rápido!” Fiquei por alguns momentos como uma criança que prova um pedaço delicioso de uma torta e depois a retiram de sua frente. Mas o sabor daquele momento ainda perdura e é sentindo-o, que escrevi esse texto.

Déa Miranda
deamiranda@nwm.com.br

 


 

O SAX RURAL DE URBANO MEDEIROS

Celebrado como um dos maiores saxofonistas da atualidade, Urbano Medeiros vive com sua família na bucólica Pará de Minas, cidade com cheiro de terra e de ruralidade. Aliás, acho mesmo que o seu nome encerra uma grande contradição: de urbano, ele só tem o nome. Um dia sugeri que ele acrescentasse o Rural. Algo como URBANO MEDEIROS RURAL. Eu sei que ficaria risível, mas, pelo menos, não seria tão contraditório, posto haver optado por viver sempre no interior do Brasil: de São João do Sabugy (RN) a São Gabriel da cachoeira (AM), com passagens por Campos do Jordão (SP), Paracatu (MG) e tantas outras cidades. Ele é tão urbano e igualmente tão rural.

Essa ruralidade aproxima Urbano de pessoas como Adélia Prado e Elomar, que escolheram a vida tranqüila do interior não somente para morar, mas para, principalmente, a partir dela, produzirem uma obra igualmente monumental.

Urbano optou, também, por um trabalho voltado para doentes depressivos, viciados, terminais... Sai de casa em casa tocando sax, pondo em prática o seu sacerdócio. Um sacerdócio na acepção mais profunda do termo. Faz um trabalho grandioso. Sem holofotes. Sem câmeras. Sem alardes. Ser um dos melhores saxofonistas do mundo não o torna orgulhoso. Pelo contrário, deixa-o "o menos de todos". Sua música não se enquadra em nenhum esquema, em nenhuma tendência, muito embora seja perceptível uma forte influência jazzística e armorial. Faz a música do coração. Hesicasta. Vez por outra vemo-lo todo vestido de
preto, qual monge saído do legendário Monte Athos, a República Monástica do Oriente. A música do Santo Efrém Sírio é-lhe tão familiar quanto a do potiguar Felinto Dantas, o músico agricultor que tem sua obra executada na Capela Sixtina, no Vaticano. Tem cheiro de terra. Lembra o canto dos pássaros; o vento que uiva na copa das árvores ou nas montanhas de Minas; o tilintar dos chocalhos. São sons extraídos da natureza, primeiro livro escrito pelo Criador. O som que flui do
seu saxofone é brisa suave. Sua música santifica o mundo. Sacraliza-o. Mora em Pará de Minas, mas poderia ser em Ipueira (RN), Buritis (MG), Parintins (AM), perto da Casa Velha da Ponte, em Goiás (GO)... Poderia ser aqui, ou aí. Não importa. Onde houver um cheiro de terra, de natureza, aí estará sua música, sua inspiração.

Vive correndo mundo, levando a todos a sua arte. Argentina. Itália, incluindo a Sardenha. França. Portugal. Inglaterra. Suiça .... é ouvido na Lituânia. Na Ucrânia. Na Rússia. Em Israel. Na Síria. No Líbano. Suas gravações viajam pelos quatro cantos do mundo. Quem o ouve logo viaja junto com ele. Mas suas raízes estão sempre presentes. Mas não são raízes cultivadas no alto dos edifícios. São raízes crescidas às margens do rio Sabugy, na encosta da Serra do Mulungu. Raízes
caatingueiras, sertanejas. Urbano Medeiros rural. O místico. O semita. O pai de Beth, de Paulo Misael e de Júlio. O descendente de Marrano misturado com Mouro. O viageiro. Um filho de Abraão apenas.

Tarzan Leão de Sousa
Da Academia de Letras do Noroeste de Minas
Secretário de Cultura de Paracatu, MG


 

O PEREGRINO DO SAXOFONE

 

O artista cristão é um entre tantos ministros da Sagrada Liturgia e está a serviço do Reino de Deus. Por isso a arte nasce como fruto da mais pura contemplação. Assim é que dizemos que, o músico deve desaparecer para, nos sons, o Mistério se manifestar segundo Sua vontade.

Urbano Medeiros, músico místico, pertencente à antiga estirpe dos músicos bíblicos, tocadores de trombetas de chifres de carneiro, é um artista singular. Ouví-lo é poder entrar em contato com a música das antigas sinagogas, com o canto gregoriano primitivo, com a música despojada dos "staretz". Urbano é mais que um músico, é um Louco de Cristo, um eremita citadino com mulher e filhos, um mansageiro da paz e um pesquisador infatigável. E foi em suas pesquisas que ele teve um encontro com Santo Efrém Sirus, místico, poeta e músico, que marcou definitivamente sua vida e, consequentemente, seu trabalho artístico. Fez a grande viagem interior ao encontro de Santo Efrém, atravessando o árduo deserto do coração humano. Urbano é antigo, é desse tipo de homem que atravessou séculos, sempre à procura de Deus... sua grande paixão.

Ah, como são poucas as palavras para expressar tão profundo sentimento, quão pequeno é o nosso coração para acolher a mensagem vivificante do Cristo, que tudo transforma, que tudo renova. E porque Urbano fala a linguagem dos anjos, a música, é que ele nos diz que, "quando toco, naquele momento eu estou conectado com Deus", Senhor e Criador nosso. Talvez seja por isto que, ao ouví-lo, também nós nos sentimos, através de seu canto, intimamente ligados ao Pai de Amor. Sua música nos ajuda a melhor compreender o cosmo, a ter uma visão holística do universo, a sermos mais completos, a vivermos segundo o Espírito. É a essa nova vida que nos levam os "ensinamentos do Mestre", a um conhecimento mais profundo do nosso próprio ser-no-mundo, do nosso próprio "deserto interior". Abençoado seja o ouvido que deixou-se nutrir por seus acordes, por sua divinal melodia.

Toque Urbano, acompanha-nos nessa maravilhosa "viagem" que faremos ao
encontro do que existe de mais profundo em nosso ser-humano. Porque tudo converge para Ele... para o mais profundo Amor! Deus seja louvado.

Nazrat León
Castelo de Engady, Caicó - R

 


 

URBANO MEDEIROS, A HEAVENLY FLOW...

The words seem to vanish in the space , since I was required to put them on paper to express what this remarkable instrument of God arises in our hearts while playing... To listen to Urbano Medeiros makes me feel as if I were a wandering feather above, slightly sliding, searching for a mysterious nest, smoothly flying over and over through space, aiming a wishful and hidden Heaven, whose Flow is a melodious … So much lyrical harmony is blended with the wealth of sensibility of a soul, that once this planet was fortunately a witness of a Divine concession, for his earthly landing, a welcoming birth and an uncommon growth… It's so amazing that, among so many people, just few ones touch our spirits, so deep down, just like Urbano Medeiros actually does… I feel delightful for God having open, gorgeous art and as well as, later on, getting along with such a great human being like him… A benevolent artist who has been using his talent to open a gap of love in people's lost and lonely hearts, taking comfort to the ones who indeed feel sadly blue and are gloomily put aside by society - rehearsing and widening their previous tasteless might, by Light, really turn out to Be… Urbano has been a real brother who has been sharing people's suffering, fulfilling empty inner holes, and relieving people's pain, with refreshing drops of chords and tones, which are able to teach a hesitant heart, how to … Urbano's murmur makes me feel as if I were about to be born in an astonishing new world, tasting something renewed, a world with puerile sensations, due to the coolness brought by his talented art… Whoever - that might be having the chance of listening to him - feels as if, in an allurement, were wakening up for a Light, in a little lyrical warmful corner, of this whole cold planet, experiencing a childish sensation comfortably hugs one by one, with that melody, joining tightly all of us together, independent from roots, creeds or colors, arousing inside us a wish of Love for Life, for People, and mainly for Him, who gave us a selfless helping hand, a good brother, a real son, reflection of His Own Heavenly Soul…

Dra. Eliana Andrade
Belo Horizonte - MG


 

URBANO MEDEIROS: TALENTO E ESPIRITUALIDADE A SERVIÇO DO BEM

 

Silêncio.

Ouve-se algo diferente…

Parece uma música.

Sim, é música. Um sopro que oxigena a alma. É o saxofone de Urbano Medeiros, grande mestre que herdou de Deus por meio do pai, Bill, o dom e o gosto pela música. E assim, desde criança, as sete notas passaram a encantar o ser daquele que se tornaria um erudito maestro. Mais importante que isso, porém, é o que Urbano fez e faz com o dom da música.

De origem judaica sefaradita, Urbano Medeiros tornou-se cristão católico após um período de experiências juvenis. Eis o marco que revolucionaria o futuro do brilhante norte-rio-grandense, nascido no sertão do Seridó.

Com o coração tomado pelo ímpeto de colocar sua música a serviço do bem de todo aquele que se fizesse próximo ou daquele de quem ele se aproximasse, não se conteve e pôs-se a caminho. Percorreu o Brasil e vários países do globo levando sua música, acalentando corações aflitos, sedentos de um sopro de vida, de um impulso que alavancasse o modo de ver e encarar a existência.

A música de Urbano Medeiros nasce do silêncio, da oração, da intimidade com Deus. Praticante do hesicasmo, faz dessa modalidade de oração, música. Torna-se, pois, instrumento de Deus através de seu sopro musical, literalmente.

Gravou vários CDs, DVDs, escreveu livros, mas seu foco é ser presença, ser suporte, levar amparo. Muitas foram as palestras, cursos e encontros ministrados por Urbano. E quantos e quantos foram os testemunhos de pessoas que se livraram da depressão, do vício do álcool, cigarro, drogas, prostituição, etc. após o contato com Urbano Medeiros e/ou com sua música.

Grandes salas de concerto, palcos consagrados da música erudita, estádios lotados? Não, não! Urbano escolheu ser simples, humilde, mesmo sendo grande. Não faz acepção de pessoas, não obstante prefira estar junto dos pequeninos. Se alguém de uma grande mansão chamar Urbano, ele vai. Se, saindo desta casa nobre, um habitante de um paupérrimo casebre da periferia precisar de sua presença, ele vai. Na zona rural, nas populações ribeirinhas, nos presídios, hospitais, asilos; não importa. Chame Urbano!

Nossos dias são controversos. Valoriza-se hoje o grotesco em detrimento do belo, a esperteza ao invés da honestidade… E por aí vai a derrocada. A repetição ininterrupta de duas ou três notas em sons estridentes, por exemplo, passou a ser chamada de música. Faz sucesso, está em todos os programas dos afamados canais de televisão, faz inúmeros e caríssimos shows. Sim. Mas, na imensa maioria das vezes, levando o quê? A degradação, os vícios, a desagregação; tudo o que vai resultar na infelicidade, na frustração, na depressão. Não nos enganemos, euforia jamais deveria ser falsamente equiparada à felicidade — esta que conduz à realização tão procurada, consciente ou inconscientemente, pelo ser humano. Somente a partir do conhecimento de si mesmo, da reflexão silenciosa, do bom, do belo e verdadeiro é possível de se alcançar a felicidade.

Finalizando, convido você, caro leitor, a conhecer — caso ainda não conheça — a música, o trabalho e até mesmo, se possível, a pessoa de Urbano Medeiros. Você verá que nem tudo está perdido. Ainda temos grandes e valiosos diamantes que talvez não estejam necessariamente em ricas joalherias, mas também junto às pedras do caminho.

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Por: Jorge Donizetti Pereira
jorgedonizettipereira@gmail.com
Artigo publicado no site Medium

 

 
 
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